O ministro da Educação e a grande trapalhada digital: quando as notas ficam “em suspenso”

Há ministros que constroem piscinas com amigos empreiteiros. Há outros que transformam o exame nacional mais importante do país num exercício de improvisação coletiva. Fernando Alexandre escolheu a segunda opção.

Este ano, pela primeira vez, os exames do 11.º e 12.º anos foram corrigidos digitalmente. O que devia ser progresso transformou-se num festival de falhas técnicas, folhas desaparecidas, códigos QR destruídos por agrafos e centenas de alunos a receber a classificação mais cruel de todas: “suspenso”. Ou seja, não têm nota.

A digitalização que veio de um planeta paralelo

O plano parecia simples: digitalizar as provas em papel e distribuí-las eletronicamente pelos professores classificadores. Na prática, foi um caos anunciado.

Professores receberam exames de disciplinas que nunca lecionaram. Houve quem tenha sido convocado depois de reformado. Houve até quem tenha sido chamado depois de morto. Alguns QR codes foram destruídos porque as escolas (pasme-se) usaram agrafos. O ministro chegou a culpar os diretores e os professores por não terem seguido as instruções “claras”.

Durante semanas, Fernando Alexandre repetiu o mesmo mantra: “Está tudo controlado.” “Os prazos vão ser cumpridos.” “Nenhum aluno será prejudicado.”

Até que teve de adiar a divulgação das notas. Depois adiou a segunda fase. E quando as pautas finalmente saíram (com atraso e a horas estranhas), centenas de provas apareceram com a misteriosa menção “suspenso”.

Motivo oficial? Folhas extraviadas ou itens de resposta indisponíveis “por motivos não imputáveis ao aluno”. Tradução livre: alguém perdeu papéis e agora o aluno é que fica sem nota.

O clássico português: primeiro nega, depois pede desculpa

O ministro passou semanas a minimizar. Falou em “algumas centenas” de casos (sem nunca dar o número exato). Prometeu auditorias. Garantiu que tudo seria resolvido “com rigor”.

No fim, o Ministério veio pedir desculpas formais aos alunos, famílias e professores. Como se um “desculpem o transtorno” apagasse o stress de quem está a tentar entrar no ensino superior com a vida académica em suspenso.

A Fenprof já pediu a demissão do ministro. Falou em “amadorismo” e “falta total de plano de contingência”. E, honestamente, não se pode dizer que estejam errados.

O padrão que já conhecemos

Primeiro vende-se a modernidade digital como se fosse a solução para todos os males. Depois ignora-se os avisos de quem está no terreno. Quando rebenta, culpa-se as escolas, os professores e os agrafos. No final, pede-se desculpa e promete-se que no próximo ano “vai correr melhor”.

Fernando Alexandre não inventou a incompetência. Mas transformou-a num espetáculo de dimensão nacional. Enquanto os alunos esperam por uma nota que ainda não chegou, o ministro continua a falar de “rigor” e “modernização”.

A pergunta que fica no ar é simples: Quantas trapalhadas mais são necessárias até alguém perceber que, neste país, digitalizar um processo sem saber fazê-lo é apenas outra forma de dizer “estamos a experimentar à custa dos miúdos”?

As notas, pelo menos algumas, continuam em suspenso. A credibilidade do ministro, essa, já caiu há muito.

Autor